Por Carolina Varella

Sawabona, caro viajante.

A saudação zulu que significa “eu te respeito, eu te valorizo”, traduz a essência da Cidade do Cabo, um lugar extremamente acolhedor, multicultural e cheio de ‘alma’. Na cidade mais atraente da África do Sul, país conhecido como “Nação Arco-Íris”, a natureza exuberante convive com uma enorme diversidade étnica. Além de excelentes vinhos, hotéis e restaurantes, e uma cada vez mais vibrante cena de arte contemporânea.

No extremo sul da África, banhada pelo Oceano Atlântico e aos pés da Table Mountain,  a cidade Cidade do Cabo é natureza, mas também conflitos.  Isto é, está marcada pelas explorações da colonização e, mais recentemente, pelo Apartheid. Mas, ainda sim, é uma das cidades mais desenvolvidas do país. Além disso, é reconhecida como a capital legislativa da África do Sul, enquanto Pretória abriga o Poder Executivo e Bloemfontein, o Judiciário

Cidade do Cabo, onde a natureza divide espaço

O CABO DAS TORMENTAS

 

Desde a época das grandes navegações, a região habita o imaginário do mundo.

Em um dos episódios mais ricos da epopeia Os Lusíadas, navegantes portugueses enfrentam os mitos do “mar tenebroso” do sul da África. E entre medos e abismos, eles ‘avistam’ o gigante Adamastor, representação mitológica grega que faz alusão às grandes dificuldades. 

O grande desafio. Quer dizer, os europeus precisavam circunavegar o continente africano para chegar às Índias com suas valiosas especiarias, e para isso, passar pelo “Cabo das Tormentas”, o Cabo da Boa Esperança. Mas esse lugar fica no âmago de uma corrente atmosférica.

A uma hora e meia de carro da Cidade do Cabo, além de contemplar uma fração do majestoso oceano Atlântico carregado de história épicas, você pode se sentir arrastado por ventos fortes e gelados — que causam uma emoção ainda maior e deixam a experiência cultural com cara de aventura!  

 

HOLANDESES, INGLESES, FRANCESES, E DIAMANTES

 

A história da Cidade do Cabo começa em 1652, quando os holandeses decidem criar um entreposto para abastecer os navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais. Com o desenvolvimento desse lugar até então desabitado, negros são escravizados e trazidos aqui.

Os ingleses chegam em 1795, e começam as disputas com os holandeses — o resultado foi favorável para o rei britânico George III. E assim, em 1814, o território se torna a capital da Colônia do Cabo.

Nos anos 1860, a descoberta de ricas jazidas de diamantes intensifica o fluxo migratório por toda a África do Sul — e vale visitar a Diamond Works Cape Winelands, no coração de Stellenbosch e Franschhoek para conhecer de perto essa história polêmica e transversal, com direito a dinastias e guerras. Um exemplo é a Guerra dos Bôeres, que colocou de um lado, colonos franceses e holandeses, e, do outro, o exército britânico.

Imagine que, até então uma raridade em países como Índia e Brasil, 65% dos diamantes do mundo vêm da África do Sul.

 

O APARTHEID, A ‘SEPARAÇÃO’

 

Com a riqueza provinda das minas de diamantes, surgiram as primeiras leis separatistas. A Lei das Terras “Nativas” reforçava a superioridade dos brancos de ascendência europeia e, em 1948, por meio do então primeiro-ministro e pastor Daniel François Milan, do Partido Nacional, teria início o mais violento movimento segregacionista da história do século 20, o Apartheid; que significa, em africâner, “separação”. 

Foram longos 46 anos de um regime vergonhoso, que proibia — por lei e até os anos 1990! — as pessoas não-brancas, consideradas “inferiores”, de frequentarem os mesmos lugares que os brancos, fossem hospitais, escolas, bairros… A placa que assombrava esse período, espalhada pelas cidades, carregava os dizeres: “Para o uso de pessoas brancas”. E por que durou tanto tempo?  O maior motivo é o interesse internacional por mão-obra barata. 

Não pense que os negros aceitaram a lei. Um ano após a oficialização do regime, já se ouvia o barulho revolucionário nas ruas, as pessoas se unindo em partidos de resistência que produziram um dos mais célebres personagens da história: Nelson Mandela, membro da resistência radical e talvez um dos mais influentes líderes de uma nação. Foi na Cidade do Cabo onde Mandela nasceu, viveu e ficou preso 16 dos 27 anos de sua pena perpétua — na ilha de Robben Island, a apenas 10 quilômetros do V&A Waterfront, aberta a visitação —,  antes de se tornar presidente do país, entre 1994 e 1999. 

 

UM NOVO APARTHEID: O DAS CIDADES DE LATA, O DA FALTA DE ÁGUA

 

Durante o Apartheid, os malaios do Cabo, escravos de maioria muçulmana, “importados” pela Companhia Holandesa das Índias no século 17, se assentaram em Bo-Kaap, a ‘favela’, onde as minoriais ‘inferiores’ viviam. No final desse período, como um ato de resistência maravilhoso, os moradores decidiram colorir cada uma das suas casas. O Truth Coffee é outro desses símbolos de resistência. E ambas são visitas imperdíveis. 

Apesar dos avanços, na cidade que é considerada a mais “branca” da África do Sul (enquanto a média de brancos no país é de quase 8%, em Cape Town é mais de 30%), negros e brancos seguem vivendo segregados; agora, pela desigualdade social. Enquanto você verá muitos brancos habitando os bairros mais caros da cidade, são os negros que se aglomeram nas gigantescas “townships”, as “cidades de lata” da periferia. 

São quase 30 anos desde o fim do Apartheid. Quase três décadas de uma paz artificial quebrada em 2021. Mesmo em meio a pandemia da Covid-19, o país ocupou violentamente as ruas — e as páginas dos noticiários — após a prisão do ex-presidente e ex-líder do Congresso Nacional, Jacob Zuma, acusado de corrupção, mas um aliado de Nelson Mandela e herói para muitos sul-africanos. É, possívelmente, a pior crise interna do país desde o Apartheid. O que se vê é que bastou essa faísca para explodir o país que, não obstante, já gritava em silêncio, sendo a África do Sul o país mais desigual do planeta. 

 

E HOJE?

Em 2018, a Cidade do Cabo passou por uma crise hídrica e quase se tornou a primeira no mundo a ficar sem água. Mas o que atravessa qualquer problema enfrentado pela cidade é, imperativamente, a questão da desigualdade social. Claro, o conflito é o tecido de toda sociedade, vemos manifestações em todos os cantos do mundo, mas quando as linhas dessa costura imprimem racismo, altíssimo grau de desemprego, somados à crise gerada pela pandemia esse tecido pode se rasgar, ou melhor, se arrebentar.  De qualquer forma, a Cidade do Cabo está — talvez — mais viva para si depois dessas manifestações?

Ainda são muitos desafios a serem enfrentados pelos capetonians, comandados pelo prefeito Ian Neilson, do partido Aliança Democrática, por conta do alto índice de violência contra a mulher, da formação de gangues etc. Nada muito diferente do que se vive nas cidades brasileiras, apesar de Cape Town ser mais seguro para os turistas. Claro, ainda assim,há de se andar atento por aí, principalmente, se você for mulher. 

Aliás, deixamos aqui registrado que, de certo modo, há ordem no caos da Nacão Arco-Íris: a África do Sul foi um dos primeiro países a liberar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2006), além de permitir a adoção por casais homoafetivos e criar leis que criminalizam a homofobia. É, portanto, considerado pela (International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersexual Association) um lugar super seguro para pessoas LGBTQIA+ visitarem. E realmente, o país está entre os lugares favoritos da comunidade, especialmente, entre os meses de fevereiro e março, quando acontece a semana de Cape Town Pride Pride, e meados de dezembro, quando acontece Mother Queer City Project, festa a fantasia anual.