A Islândia transformou o vazio em produto turístico. Enquanto o turismo mundial se tornou acelerado, barulhento e dependente de estímulo constante, o país cresceu vendendo praticamente o oposto: silêncio, isolamento, estradas vazias e paisagens inóspitas. Nos últimos anos, a Islândia saiu de um destino extremamente específico para entrar no radar global do turismo internacional. Em 2023, recebeu cerca de 2,2 milhões de visitantes, número enorme para um país com pouco mais de 390 mil habitantes. Ainda assim, continua transmitindo a sensação de lugar distante e difícil. E isso ajuda a explicar por que a Islândia passou a atrair um perfil de viajante interessado muito mais em desacelerar do que simplesmente consumir atrações.

Imagem: Patricia Cestari

O TURISMO QUE NÃO PROMETE EXCESSO

Grande parte das pessoas que sonham em conhecer a Islândia provavelmente nunca irão. E isso não acontece por falta de desejo. Pelo contrário. O país virou um dos cenários mais desejados das redes sociais nos últimos anos. Aurora boreal, cavernas de gelo, estradas cinematográficas, vulcões, hotéis isolados, fontes termais no meio do nada. A estética islandesa conversa perfeitamente com a internet contemporânea. Entretanto, existe uma diferença enorme entre salvar vídeos da Islândia no TikTok e realmente viajar para lá.

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A viagem exige dinheiro, tempo e principalmente disposição para um estilo de experiência muito diferente do turismo tradicional. A Islândia é cara. Hospedagens isoladas custam caro. Restaurantes custam caro. Alugar um carro praticamente deixa de ser opção e vira necessidade. Além disso, boa parte das experiências envolve longas horas de estrada, mudanças climáticas repentinas, pouca estrutura em regiões afastadas e um ritmo muito mais lento. Não existe a lógica do “fazer vinte coisas em um dia”. Em muitos momentos, o turismo islandês gira justamente em torno do não fazer nada. Entrar em uma lagoa termal durante horas. Dirigir sem pressa vendo campos vulcânicos pela janela. Observar neve, lagos e silêncio.

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E isso naturalmente filtra o público. A Islândia ainda não virou um destino totalmente popular porque ela exige um tipo muito específico de viajante. Não necessariamente alguém buscando luxo tradicional, festas ou consumo exagerado. O perfil que começa a crescer ali é outro: pessoas interessadas em natureza extrema, quietude, longas viagens de carro, acampamentos, montanhas, pequenas vilas e experiências menos imediatas. O mesmo imaginário que impulsiona viagens para Patagônia, Alpes suíços, Nepal ou partes remotas do Canadá.

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O MUNDO COMEÇOU A PAGAR PELO SILÊNCIO

Existe também uma transformação cultural importante acontecendo por trás desse crescimento da Islândia. Durante muito tempo, o turismo vendeu excesso. Mais atrações, mais festas, mais restaurantes, mais estímulos, mais multidões. Agora aparece um movimento contrário crescendo entre parte dos viajantes mais jovens e também entre pessoas de maior poder aquisitivo: a busca por lugares menos saturados, mais difíceis e menos óbvios.

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Desse modo, a Islândia encaixa perfeitamente nessa lógica contemporânea. Não apenas pela natureza absurda, mas porque ela ainda preserva uma sensação rara de distância do mundo urbano tradicional. Em muitos lugares do país, a impressão é de que a civilização simplesmente terminou algumas horas atrás. Estradas vazias cortando campos vulcânicos. Fazendas isoladas. Vilarejos minúsculos. Pouquíssima poluição visual. Em vários momentos, o silêncio da paisagem chega a ser desconfortável para quem vem de grandes cidades.

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Ao mesmo tempo, existe uma contradição interessante: o país vende isolamento, mas depende cada vez mais do turismo internacional. O setor já representa uma das atividades econômicas mais importantes da Islândia. Em 2022, turismo e transporte de passageiros responderam por cerca de 26% das receitas de exportação do país. Além disso, o crescimento acelerado do turismo já começou a gerar discussões locais sobre custo de vida, moradia e pressão ambiental, algo que outros destinos europeus enfrentam há anos. A diferença é que a Islândia ainda está em uma fase anterior ao colapso turístico visto em cidades como Barcelona, Amsterdam ou Veneza.

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O LUGAR ONDE O VAZIO VIROU LUXO

Assim, existe algo muito simbólico no fascínio atual pela Islândia. Em uma era em que praticamente tudo virou excesso, velocidade e hiperestimulação, um dos destinos mais desejados do planeta começou a crescer oferecendo exatamente o contrário. Menos barulho, menos pressa e menos conexão com a cidade. Muita gente sonha com a Islândia sem necessariamente planejar a viagem de fato, porque o país passou a representar uma ideia difícil de ter no turismo moderno: a sensação de estar distante o suficiente para desacelerar. No fundo, a Islândia não vende apenas paisagens bonitas. Ela vende silêncio e tempo. E poucas coisas ficaram tão valiosas quanto isso.

Imagem: Patricia Cestari