Será que é possível existir um lugar no mundo onde prostituição, sex shops, museus e igrejas convivam na mesma região? Amsterdam mostra que isso não apenas é possível, como também faz desse um dos lugares mais visitados da cidade. A capital holandesa é conhecida mundialmente pelo seu liberalismo e pela diversidade, refletidos em políticas como a legalização da prostituição e a tolerância ao consumo de drogas leves. Por isso, se você quiser entender melhor esse universo, o local mais famoso e interessante para visitar é, sem dúvidas, o Red Light District (De Wallen).
ONDE FICA E COMO CHEGAR AO RED LIGHT DISTRICT
Localizado bem no coração histórico de Amsterdam, o Red Light District — oficialmente chamado de De Wallen — é uma das áreas mais acessíveis de toda a Europa. Para quem acaba de desembarcar na cidade, a melhor notícia é a praticidade: o bairro fica a apenas 10 ou 15 minutos de caminhada rápida saindo da Estação Central (Amsterdam Centraal). Basta sair pela porta principal da estação, seguir em direção à praça Dam e dobrar nas primeiras vielas à esquerda.
Por estar cravado na zona central, você dificilmente precisará gastar com transporte público, táxis ou aplicativos para chegar até lá. Caminhar a pé é, sem dúvidas, a melhor opção para ir sentindo a transição gradual da arquitetura dos canais até o burburinho das luzes avermelhadas. No entanto, se você estiver vindo de pontos mais distantes, as linhas de tram (o bonde elétrico local) ou o metrô com parada na estação Nieuwmarkt deixam você literalmente a poucos passos do coração do bairro.
HISTÓRIA
A história do Red Light District está diretamente ligada à intensa movimentação marítima nos portos de Amsterdam durante a Idade Média. Entre os séculos XIV e XV, a cidade já era um importante centro comercial da Europa, recebendo diariamente embarcações mercantes de diferentes partes do continente. Como consequência, o número de marinheiros que desembarcavam na cidade aumentou significativamente, dando origem a um novo mercado voltado para atender esse público.
Como esses marinheiros passavam semanas — ou até meses — confinados nos navios, trabalhando em condições bastante difíceis, era comum que, ao chegar ao porto, procurassem formas de descanso e entretenimento. E foi justamente na região de De Wallen, onde hoje está localizado o Red Light District, que tavernas, hospedarias e bordéis começaram a se concentrar. Dessa forma, o bairro passou a se desenvolver naturalmente como um ponto de encontro para quem buscava bebidas, diversão e companhia.
O PORQUÊ DAS LUZES VERMELHAS
A cor vermelha costuma ser associada ao amor e à paixão. No entanto, no Red Light District, a famosa iluminação vermelha tem uma origem cercada por diferentes teorias. A mais conhecida afirma que, como muitos marinheiros não conheciam Amsterdam, os bordéis passaram a utilizar lanternas e luzes vermelhas para facilitar a identificação de seus estabelecimentos durante a noite. Afinal, em meio ao breu dos canais medievais, a lanterna vermelha era o sinal inequívoco de que ali havia entretenimento.
Além dessa teoria, existe outro fator que pode ter contribuído para a popularização da luz vermelha: um truque estético bastante eficaz para a época. A iluminação avermelhada funcionava como um “filtro natural“, suavizando imperfeições da pele, disfarçando cicatrizes, marcas de varíola e até alguns sinais visíveis de doenças, como a sífilis. Dessa forma, além de tornar os estabelecimentos facilmente reconhecíveis, a luz também ajudava a valorizar a aparência das mulheres, tornando-as mais atraentes para os clientes que chegavam ao porto.
QUEM ERAM AS PROFISSIONAIS DO SEXO?
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, não existia um único perfil entre as mulheres que trabalhavam com prostituição em Amsterdam. Durante a Idade Média e, mais tarde, na Era de Ouro Holandesa, muitas viviam em situação de vulnerabilidade e encontravam nessa atividade uma das poucas formas de garantir o próprio sustento. Entre elas estavam viúvas de marinheiros que nunca retornavam de suas viagens e, sem uma fonte de renda ou oportunidades de trabalho, precisavam encontrar uma maneira de sobreviver.
Além das viúvas, outro fator que contribuiu para o aumento da prostituição foi o êxodo rural. Em busca de uma vida melhor, muitas jovens deixavam o campo para tentar trabalhar em Amsterdam, principalmente como empregadas domésticas ou costureiras. No entanto, a oferta de empregos era limitada e, sem dinheiro, apoio familiar ou perspectivas, algumas acabavam recorrendo à prostituição como a única alternativa para garantir seu sustento.
A OUDE KERK: A IGREJA NO CENTRO DO RED LIGHT DISTRICT
Os turistas que visitam o Red Light District costumam esperar encontrar casas de sexo, coffeeshops, bares e uma vida noturna agitada. Contudo, ao chegar à região, muitos se surpreendem com um contraste difícil de encontrar em outro lugar do mundo: uma igreja medieval localizada em meio ao bairro mais famoso da prostituição. A Oude Kerk (Velha Igreja), consagrada em 1306, é a igreja mais antiga de Amsterdam. Construída inicialmente como uma pequena capela de madeira, foi ampliada ao longo dos séculos até se tornar o imponente templo de pedra atual. Dedicada a São Nicolau, padroeiro dos marinheiros e também considerado protetor das prostitutas, ela está localizada no coração de De Wallen, onde, há séculos, convive com as famosas vitrines iluminadas por luzes vermelhas.
Essa curiosa convivência deu origem a diversas histórias e lendas. Durante a Era de Ouro Holandesa, conta-se que muitos marinheiros desembarcavam no porto, passavam a noite nos bordéis da região e, na manhã seguinte, entravam na Oude Kerk para confessar seus pecados, fazer doações e pedir proteção antes de voltar ao mar. Embora não existam registros que comprovem essa prática, a história atravessou gerações e inspirou um antigo provérbio local: “Sob a sombra da igreja, floresce o pecado.”
Atualmente, a Oude Kerk continua sendo uma igreja protestante ativa, com celebrações religiosas aos domingos. Ao mesmo tempo, recebe exposições de arte contemporânea e concertos de música clássica e barroca. Os visitantes também podem subir à torre sineira em visitas guiadas, de onde se tem uma das vistas panorâmicas mais bonitas do centro de Amsterdam. Na praça em frente à igreja estão a estátua de bronze Belle, uma homenagem às profissionais do sexo, e um discreto relevo de uma mão acariciando um seio, reforçando o contraste que tornou o Red Light District um dos lugares mais curiosos da cidade.
COMO FUNCIONA A PROSTITUIÇÃO ATUALMENTE
Nos dias de hoje, o Red Light District continua sendo a região mais conhecida de Amsterdam para a prostituição legalizada. No entanto, o bairro mudou bastante nas últimas décadas. Se antes a maior parte do movimento era formada por marinheiros e moradores locais, hoje o turismo domina a região. Milhares de visitantes passam diariamente por suas ruas para conhecer sua história, observar as famosas vitrines e explorar um dos lugares mais curiosos da cidade. Inclusive, é comum encontrar casais, grupos de amigos e até famílias caminhando pelo bairro durante o dia. Para muitos turistas, o Red Light District já faz parte do roteiro de atrações de Amsterdam.
Ao mesmo tempo, a prostituição continua funcionando de forma regulamentada. Muitas profissionais trabalham de forma independente e alugam as tradicionais vitrines para atender seus clientes. Toda a atividade segue normas estabelecidas pelas autoridades holandesas. Além disso, as trabalhadoras pagam impostos e possuem direitos e deveres previstos na legislação. Nos últimos anos, a prefeitura de Amsterdam também reforçou a fiscalização da região. O objetivo é combater a exploração sexual, a lavagem de dinheiro e os impactos do turismo excessivo. Com isso, o Red Light District tornou-se um ambiente muito mais organizado do que muitos imaginam.
O QUE ENCONTRAR NO RED LIGHT DISTRICT
O Red Light District (De Wallen) é um bairro. Embora seja mundialmente conhecido pelas vitrines com prostitutas, ele reúne diversas atrações. Todas fazem parte da experiência de visitar Amsterdam. Caminhando por suas ruas estreitas e canais históricos, os turistas encontram coffeeshops, bares, restaurantes, sex shops, lojas de souvenirs, museus e uma vida noturna bastante movimentada. Não à toa, a região é uma das mais visitadas da cidade.
Entre os destaques estão os famosos coffeeshops, autorizados a comercializar pequenas quantidades de cannabis e haxixe. Além das flores secas e do haxixe, muitos também oferecem os chamados edibles. Eles são alimentos preparados com cannabis, como brownies, cookies, chocolates e os tradicionais space cakes. Outro destaque são os cinemas adultos, teatros eróticos e museus temáticos. Juntos, eles ajudam a contar a história da prostituição, do erotismo e da cultura liberal que tornou o bairro conhecido no mundo inteiro.
Entre os coffeeshops mais famosos da região estão o The Bulldog No. 90, onde também fica a The First, loja que marcou o início da marca em 1975. Outros destaques são o tradicional Green House Centrum e o enorme Prix d’Ami, um dos maiores coffeeshops de Amsterdam. O bairro também abriga atrações como o Museu do Sexo e o Red Light Secrets, considerado o Museu da Prostituição de Amsterdam. Além disso, há inúmeras sex shops, bares e casas de entretenimento adulto espalhadas pela região.
QUAL É O MELHOR HORÁRIO PARA VISITAR O RED LIGHT DISTRICT?
Muita gente acredita que o Red Light District só vale a pena à noite, mas visitá-lo durante o dia revela uma atmosfera completamente diferente. As ruas costumam ser mais tranquilas e ter menos movimento. Sendo um momento perfeito para caminhar sem agitação, admirar a arquitetura histórica e fotografar os canais. Contudo, para quem busca vivenciar a experiência clássica, o momento ideal é ao anoitecer, por volta das 19h às 20h, quando os neons vermelhos ganham vida, os bares enchem e as vitrines entram em pleno funcionamento.
Vale lembrar que os horários do bairro foram antecipados pela prefeitura para reduzir o barulho: nos fins de semana, as vitrines encerram as atividades às 3h e os bares às 2h. Chegar no início da noite permite pegar o auge da iluminação com tempo de sobra para caminhar antes que as vielas fiquem excessivamente lotadas. Por isso, passear de dia e retornar no começo da noite é a melhor estratégia para conhecer as duas faces de De Wallen.
REGRAS QUE TODO TURISTA DEVE RESPEITAR
Apesar da fama de liberdade, o Red Light District possui regras rígidas para garantir a boa convivência na região. A principal delas é: nunca fotografe ou filme as profissionais nas vitrines. Todas as janelas contam com avisos dessa proibição e o desrespeito pode gerar reação imediata, desde advertências das próprias trabalhadoras até intervenção da segurança ou polícia. A regra também vale para casas de striptease e sex theaters.
Outro ponto fundamental envolve o consumo de substâncias em locais públicos. Desde 2023, a prefeitura proibiu fumar maconha nas ruas de parte do centro histórico, incluindo o Red Light. Além disso, consumir bebidas alcoólicas na rua também é proibido, e o descumprimento de qualquer uma dessas regras gera multa imediata de € 100. O uso de cannabis segue liberado apenas em locais autorizados, como áreas internas e varandas de coffeeshops.
Se a ideia for fazer um passeio guiado, fique atento: tours em grupo são proibidos nas vielas internas de De Wallen. Os guias credenciados só podem fazer explicações na borda externa do bairro e devem passar pelas ruas centrais em silêncio. Por fim, mantenha a atenção com seus pertences e recuse ofertas de vendedores ambulantes, pois furtos discretos podem acontecer à noite, mesmo sendo uma área bastante policiada.
CUIDADOS AO VISITAR O RED LIGHT DISTRICT
Apesar da fama de ser uma área boêmia, o Red Light District é um dos locais mais policiados e vigiados de Amsterdam, repleto de câmeras e agentes à paisana. No entanto, a combinação de ruas estreitas, fluxo intenso de turistas distraídos e consumo de álcool cria o ambiente perfeito para a ação de batedores de carteira (pickpockets). O furto de celulares e carteiras é o crime mais comum na região, e os suspeitos costumam atuar em dupla, aproveitando qualquer esbarrão nas pontes mais movimentadas para agir sem que você perceba.
Para evitar dores de cabeça, a regra de ouro é manter o celular firme nas mãos ao tirar fotos e evitar guardá-lo nos bolsos de trás da calça. Bolsas e mochilas devem ficar sempre posicionadas na parte da frente do corpo. Outra dica valiosa é ignorar abordagens de estranhos oferecendo substâncias ou passeios na rua: além de a prática ser ilegal, muitas vezes a abordagem serve apenas como distração para um parceiro furtar seus pertences enquanto você responde. Com um pouco de atenção básica com seus itens pessoais, a sua caminhada pelo bairro será totalmente tranquila.
ALÉM DE DE WALLEN: OUTRAS ÁREAS DE PROSTITUIÇÃO EM AMSTERDAM
Embora De Wallen seja o Red Light District mais famoso de Amsterdam, ele não é o único local da cidade onde a prostituição é legalizada. Outra região conhecida é a Ruysdaelkade, localizada no bairro De Pijp. Diferentemente de De Wallen, a área está longe do centro histórico e praticamente não recebe turistas. As vitrines ficam distribuídas ao longo de um canal e o movimento é muito mais discreto, sendo frequentado principalmente por moradores da cidade.
Outra zona de prostituição é a Singelgebied, situada nas proximidades da Singel, um dos canais mais conhecidos de Amsterdam. Por estar mais próxima do centro, ela costuma receber alguns visitantes, mas ainda assim é bem menos movimentada do que De Wallen. As vitrines, bares e estabelecimentos da região mantêm o mesmo modelo de funcionamento, porém em uma escala muito menor.
O FUTURO DO RED LIGHT DISTRICT
O Red Light District de Amsterdam também passa por mudanças. Há alguns anos, a Prefeitura de Amsterdam estudava a criação do Erotic Centre, um novo espaço destinado ao trabalho sexual fora de De Wallen. A proposta fazia parte de um plano para reduzir a pressão turística sobre o bairro, melhorar as condições de trabalho e segurança das profissionais do sexo e diminuir os impactos da atividade sobre os moradores. No entanto, o projeto não seguirá adiante no formato planejado anteriormente. Em junho de 2026, o novo governo municipal anunciou que não dará continuidade ao Erotic Centre como havia sido proposto.
Por enquanto, quem visita Amsterdam ainda encontrará as famosas vitrines de De Wallen, mas o futuro da área continua sendo tema de debate. A cidade ainda discute quais alternativas poderão ser adotadas para lidar com os desafios relacionados ao turismo, ao trabalho sexual, à segurança e à qualidade de vida na região. A tendência é buscar um equilíbrio maior entre a preservação do caráter histórico do bairro, o trabalho das profissionais do sexo e a experiência de moradores e visitantes.
CONHEÇA AMSTERDAM
Amsterdam é uma cidade permeada por canais, emoldurada por prédios históricos, tomada por bicicletas, muito globalizada e de uma expressividade ímpar: é simplesmente incrível. Em outras palavras, é daquelas cidades fáceis de se apaixonar.

Imagine-se caminhando pelos canais, sentando em um de seus cafés charmosos em ruas pitorescas, ou naqueles cafés mais típicos com a decoração amadeirada e que também servem cervejas em copos compridos; ou então explorando os mercados de flores, de antiguidades, vendo de perto as pinturas do Van Gogh, conhecendo centro culturais em um evento especial. Uma cidade que se faz acontecer, tanto por sua beleza quanto pelo que as pessoas fazem dela.
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